17 julho 2019

leia as palavras na minha pele como quem lê com a língua.


Eu não quero mais escrever, percebi. Não quero. Nunca gostei de verdade. São apenas letras numa página. Uma carta nunca enviada. Um choro no diário. Nunca foi nada demais. Nunca serviu para nada além de me machucar. E eu chorei por tanta coisa por tanto tempo que agora podem me bater no rosto que eu sigo como se nada tivesse me acontecido. Pode vir, me derruba. Eu gosto do chão. O que eu não gosto é de escrever e a única pessoa que importa nunca ter lido nada. Nada. Uma linha sequer, rimada ou fantástica. Por favor, leia as palavras na minha pele como quem lê com a língua. Me lê. Porque eu não aguento mais te escrever. Não aguento mais nada.

11 julho 2019

elephant.


Você pode me manter presa, mas eu sempre acabo fugindo. Seus braços ao meu redor não significam nada na manhã seguinte e eu saio sem fazer barulho.
Você nunca percebe que eu te evito por dias e então te procuro em qualquer madruga depois de ter bebido. Você apenas vem ou me chama. Seria tão fácil seguirmos assim. Mas sinto seus braços me segurando durante a noite. Eu nunca durmo. Te vejo sonhar através das pálpebras fechadas. Não sonha comigo, por favor, não sonha comigo. Então você acorda e sorri para o nada, pois eu já não estou mais lá. E você também não me procura, acredita que assim pode conseguir me conquistar.
Te sinto querendo fazer perguntas, pedir coisas que talvez eu não saiba dar.
Te sinto querendo se aproximar mais e mais... E eu fujo. Não aprendi a receber, a partilhar, eu só sei fugir ou implorar.
Eu só sei rimar verbo.
Mas você quer me amar.

Ninguém percebeu quando eu desapareci.


Ninguém percebeu quando eu desapareci. Não deixei recados, não avisei ninguém. Eu silenciei cada grito e vontade e parti. Ninguém percebeu. Quando voltei, ninguém perguntou por onde eu andei e por quanto tempo transitei entre as ruas vazias da minha cabeça. Ninguém percebeu. Eu quero sumir de novo. E não quero que ninguém note dessa vez, já estou preparada. Não sei se volto, a escuridão parece maior, como um buraco que cresce atrás do meu olho direito. Eu vou apagando as pessoas, as coisas que eu gosto e então me apago também. Ninguém percebe.
Nem mesmo eu.

02 julho 2019

E nesse um minuto para o fim do mundo

Continuo te escrevendo cartas que quase levam teu nome, meu amor, na ilusão de que me lerá e então voltará pra mim. Continuo aqui, quase te exigindo respostas para perguntas que não sei fazer. Eu não sei o que quero de ti, mas eu quero tudo. Quero que cheguemos nos dias do futuro que desenhamos juntos nas noites em que eu dormia em teu peito e só o que havia entre nós era nossa pele. O plano era ficarmos bem, mas ninguém imaginou que só conseguiríamos ficar bem um longe do outro.
Mas eu não estou bem.
É febre que me faz murmurar teu nome enquanto durmo. É corpo pesado porque o amor pesa nas minhas costas e eu cansei de carregar o mar e o céu sozinha. As mãos não aguentam mais puxar vazio. E eu continuo escrevendo, te chamando em letras pretas enquanto deveria escrever um romance, entregar personagens fantásticos e falar sobre qualquer outra coisa senão tu e tuas mãos e nossos lábios juntos até não haver mais ar para respirar.
E nesse um minuto para o fim do mundo, meu amor, eu acho que posso seguir se tu chegares agora e me tirares os pés do chão.

29 junho 2019

A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos.

Ele disse "você que sabe", mas eu não sabia, não sei agora e nunca soube. Ele que parecia saber o que queria, já que cobrava de mim uma posição. "Você que sabe", não, eu não sei e por não saber que agora o espero voltar com Beatles e algo sobre meus olhos castanhos parecerem fogo quando estava dentro de mim. Os olhos dele são da mesma cor da tempestade que chega. Por não saber, agora vejo cada uma de suas fotos com ela, me perguntando se estaríamos assim também, o mesmo sorriso, rosto contra rosto e os narizes vermelhos de frio. Sei que não, porque eu o veria se aproximar com o celular e castraria qualquer uma de suas ideias, alegando "sermos maiores que isso", mas não somos, nunca fomos. Não fomos nada porque ele jogou em mim um "você que sabe" sabendo que eu não saberia responder.

Percebo, então, que foi tudo arquitetado. Ele arremessou contra mim uma culpa da qual queria se eximir. Ele queria que eu ficasse meses me culpando por nos jogar fora porque ele não queria ser responsável. Ele disse "você que sabe" porque sabia que eu não saberia e então daria de ombros como quem diz "okay, agora vamos seguir separados porque você nunca sabe" enquanto ele sabia exatamente o que queria: seguir sozinho.

Até encontrá-la e me fazer passar noites insone me sentindo menor porque ela deve ser uma mulher que sabe

E eu nunca vou saber.