"... porque o que há em mim são fissuras abertas nas quais eu mesma jogo sal quando te puxo para uma conversa sem fim e tudo que me faz mal, eu bebo à goladas. Tu me fizeste tanto mal e mesmo assim quero beber da tua pele para voltar a sentir gosto de casa. Eu te quero em casa mais uma vez, na minha cama, andando na minha cozinha, bebendo da minha água e banhando-te com o mesmo sabonete que eu. Te quero por todo o lugar. Sim, inclusive aqui dentro de mim. Eu quero, e ainda te querer depois de tudo que me fizeste, é o que dói. Porque eu deveria era te odiar e tudo que faço é te querer. Tu. Apenas tu e essas tuas mãos e costas. Os pelos em teu peito e os calos nos teus pés. Tu e todo o teu gosto espalhado por minha carne febril. O que dói é te querer, muito mais do que tudo que me fizeste. E, mesmo à distância, eu rogo por “nunca mais”, eu rogo “nunca mais sentir isso e viver assim”. Então, te tiro da minha vida de novo e mais uma vez. Antes que te enfie dentro da minha casa e corpo até que crie raízes que sofrerei para cortar. Tu és o próprio corte, tua boca é sal e tua pele é sopro. "
Já faz tanto tempo que meus olhos não cruzam os teus.
Mas você lembra, não lembra? De todas as coisas erradas que fizemos juntos. De todos os roubos e mentiras e assassinatos. Você lembra da minha mão no teu braço naquela noite fria, o couro contra meus dedos e eu gritava “corre! Corre! Mais rápido, mais rápido”. Primeiro, você ficou com raiva porque a culpa era minha, mas logo estávamos rindo e fugindo e o mundo parecia de fato só nosso. Você lembra do puxão em meu cabelo emaranhado nos lençóis sujos. Já estava quente quando nos dissemos adeus. E eu lembro do gosto de sangue na minha boca. Sangue dos teus lábios machucados, os nós dos teus dedos com sabor de outros homens. Sangue, terra e gasolina. E suor. Mesmo nas noites mais geladas, nosso suor se misturava com a brisa e secava, gelava, arrepiava. Matava aos poucos o calor que emanava da fricção de nossos corpos. As folhas amareladas no chão eram esmagadas por nossas botas e eu sempre estava a dois passos atrás de ti, então, corria em leves saltos como quem diz “me agarre antes que eu me jogue”. Mas você lembra do prédio mais alto, dos meus pés descalços bem na beira, as unhas roxas descascadas, o sinal em forma de país europeu entre os dedos pálidos. “Eu vou fazer isso”, eu dizia esperado uma resposta desesperada tua. E recebia tuas pernas cruzadas no chão, os óculos escuros cobrindo o rosto e o sorriso nos lábios cortados. “Vá em frente”, me respondia. Então eu me jogava na direção contrária, machucando tuas costas com meu peso e ralando meus joelhos e palmas. “Você não pode me deixar ir”, eu ordenava ofegante contra tua respiração. Tuas mãos apertavam minha carne, queimando a pele através do vestido. “Eu posso fazer a porra que eu quiser”. Então eu lembro das gotas de suor ardendo nos olhos, ensopando os cílios como quem chora. Era quente quando nos vimos pela última vez. A batida na porta do carro. O vidro imundo com um coração desenhado meses antes. “Apaga essa merda, por favor”, pedi quando você já não podia me ouvir. Me apaga como cigarro abandonado bem antes do fim. Você lembra que essa foi a única vez que fez o que eu pedi?

Você voltou

Você voltou e cortou o que florescia
Secou o que fluía
Matou o que nascia
Apagou o que eu escrevia

Você voltou e quebrou ao meio o que crescia
Puxou para baixo o que ascendia
Soprou o que forte ardia
Me fez desistir quando eu já vencia

Você voltou e bagunçou a calmaria
Você voltou para encontrar apenas uma casca vazia
E roubar o que me pertencia
Você voltou e acinzentou meu dia

Você voltou para me matar
Como disse que faria
Não posso sequer lutar
Porque você voltou como eu sabia

Que voltaria.

Enquanto agonizo

Enquanto agonizo
Tua mão na minha
Chove granizo
E nunca me senti tão sozinha

Enquanto imploro
Tudo que tenho são tuas costas
As últimas palavras decoro
E ao sair nem bato nem fecho a porta

Enquanto caio
O que me resta é teu cheiro
As chuvas de maio
E o nosso voltar que nunca foi verdadeiro

Enquanto levanto
Meu reflexo no espelho
Não mostra nem uma demônio nem um santo
E o que bate e rebate em mim é apenas o velho conselho:

Enquanto for por enquanto

Não será para sempre.