Nós vamos nos destruir
Porque tudo que conhecemos é a dor
Não sabemos mais como sentir
Porque confundimos esperança com pavor

Nós vamos nos destruir
Temos sangue em nossas mãos
Tudo que sabemos é resistir
Porque transformamos em gelo nossos corações

Nós vamos nos destruir
Cada um, buraco negro infinito
Sugando vidas sem pedir
Porque matamos, mas é apenas por instinto

Nós vamos nos destruir, meu amor
Pare de chorar que eu também paro
Vamos conseguir acordar, sair do estupor
E vamos parar de viver ao contrário


Somos boas pessoas, mas vamos nos destruir.
Quer que eu te escreva poesia?
Então rasgue qualquer vestígio daquela mulher
E, se a amou um dia,
Que a esqueça assim que puder

Quer que eu te escreva algumas rimas em um poema?
Então a abandone, a faça esperar por uma decisão
Não responda mensagens nem telefonemas
E, quando puder, afaste da dela, a tua mão

Quer palavras versadas pensadas em ti?
Então jogue nela toda a culpa pela própria dor
Rebata quando ela alegar estar cansada admitindo que mente
Sempre prefira o cabelo dela de “uma outra cor”
Então quer que eu te escreva poesia?
Mate aos poucos aquela que conheceu
Roube dela pedaços que nunca mais ser colocados juntos poderão
Porque ela te dará tudo, se assim pedir

Destrua a fantasia
De que, quem se ama, ficará junto apesar de tudo que aconteceu
Prove para ela que todas as palavras de amor são em vão
Porque ela acredita fácil, sem insistir

Porque fica fácil te escrever poesia
Se a mulher que destruir desaparecer
A poeta renasce das cinzas da noite para o dia
E, escrevendo, aprende a te esquecer.

Não quero mais, percebo ao acordar ao teu lado. Tu ainda dormes, confiando teus sonhos e respiração em mim. A mão aperta a carne da minha cintura quase que por instinto e eu me sinto encolher. Não quero mais, digo baixinho, ansiando que teu eu que dorme escute, assim, não preciso dizer nada ao teu eu-acordado. As coisas seriam mais fácies, nada de longos silêncios, perguntas e questionamentos. Nada de teus olhos marejados, meu olhar fugindo do teu. Nada da tua boca tentando cair sobre a minha numa tentativa de me convencer que não tem que ser desse jeito. Nada de um último abraço no batente da porta, minha mão ainda na maçaneta enquanto teus braços me levantam e apertam. Nada de um quase arrependimento ao te ver partir. Seria tão mais fácil se tu acordasses agora e simplesmente fosse embora depois de um beijo na minha testa. Mas tu acordas e sorri, puxando meu corpo junto ao teu. Sorri como num bom dia, aquele sorriso de quem tem certeza que o dia realmente será um bom dia. Eu vou te quebrar o coração. Solta minha mão, por favor, solta. Não. O problema é comigo, obviamente é comigo. Ah, teu cheiro espalhado pela minha casa, a marca de teus dedos na minha pele, teus dentes no meu pescoço. Tu estás em todo o lugar e eu não te quero em lugar nenhum. Eu te quero fora daqui e da minha vida antes que eu te deixe entrar e criar morada dentro de mim, antes que eu não possa mais te deixar sair. Então sai, vai, sai. Solta minha cintura, tira teus dedos do meu rosto nessa tua carícia matinal que mais me parece reverência, adoração. Levanta, procura tuas roupas entre as minhas jogadas pelo chão do quarto e sai. Bata a porta se quiseres, mas sai. Meu deus, sai. Sai antes que eu te puxe pelo braço, abra meu corpo, coração e alma e toma, pega pra ti minhas lágrimas, meu amor, minha vida. Toma, pega pra ti. Toma, é meu coração que pulsa, que dói. E dói porque não sei mais se posso te deixar ir embora. Então ou pega ou vai embora, mas não me deixa escolher, eu vou te quebrar o coração. Vou quebrar meu coração. Sai antes que o bom dia vire boa tarde, boa noite e eu passe contigo o dia todo, como eu quero passar. Então sai, meu Deus, sai. Sai antes que eu te peça que não me deixe, que não se vá, que não, que não, não me abandona, me puxa pra mais perto, te deixo que entre, corpo, vida, alma, coração. Entra e não sai mais, então.

Entra e fica.


 O não escrever me mata aos poucos. Parece exagero, mas eu sangro a cada página em branco que me encara como que se me provando que consigo ser ainda mais fracassada do que acredito. Fracasso. Deslize. Sou deslize e me requebro toda na dor. Na dor. Ninguém entende como é não conseguir tirar tudo que tem na mente e jogar no papel. Ninguém entende como é não ter mais nada para jogar no papel. Sumiu tudo. Não existe mais aqui inspiração. Eu já não existo.  Quero contar a história dos meus pequenos, do meu herói filosófico e depressivo. Da minha mocinha que vem crescendo e tornando-se mulher. Do meu garoto de olhos castanhos que já viu toda a podridão do mundo, mas ainda tem fé. Eu os amo tanto, tanto, e eles não aparecem mais. Sou a pior mãe que poderia ser. Eu os abandonei quando eles mais cresciam. Eu os deixei no fogo. Eu os faço sofrer. Eu os abandonei. Eu me abandonei ao parar de escrever e, meu Deus, me ajuda, me ajuda, eu preciso voltar a escrever, eu preciso voltar a me encontrar porque escrever é se encontrar ao se ver perdido e ir se procurando e se encontrando e se perdendo de novo. É tal a necessidade que agora, 11h07min de uma terça-feira fria, estou a digitar como se salvando minha vida, eu preciso tanto ser salva. Mas não sei do quê. De mim. De ti. Dos meus pequenos. Eu preciso ser salva e apenas sou salva ao escrever. Não essas cartas gritadas. Não meus gritos, meu choro, minha dor. Toda a minha dor. Não. Quero escrever capítulos inteiros que formam um romance inteiro que termina uma série inteira. Uma vida inteira.
Beija meus lábios ressacados
E puxa pra ti o que há tempos não é de ninguém
Enrosca meus dedos congelados

E
toca,
testa,
até 
que
eu 
sinta 
algo 
também.