O não escrever me mata aos poucos



 O não escrever me mata aos poucos. Parece exagero, mas eu sangro a cada página em branco que me encara como que se me provando que consigo ser ainda mais fracassada do que acredito. Fracasso. Deslize. Sou deslize e me requebro toda na dor. Na dor. Ninguém entende como é não conseguir tirar tudo que tem na mente e jogar no papel. Ninguém entende como é não ter mais nada para jogar no papel. Sumiu tudo. Não existe mais aqui inspiração. Eu já não existo.  Quero contar a história dos meus pequenos, do meu herói filosófico e depressivo. Da minha mocinha que vem crescendo e tornando-se mulher. Do meu garoto de olhos castanhos que já viu toda a podridão do mundo, mas ainda tem fé. Eu os amo tanto, tanto, e eles não aparecem mais. Sou a pior mãe que poderia ser. Eu os abandonei quando eles mais cresciam. Eu os deixei no fogo. Eu os faço sofrer. Eu os abandonei. Eu me abandonei ao parar de escrever e, meu Deus, me ajuda, me ajuda, eu preciso voltar a escrever, eu preciso voltar a me encontrar porque escrever é se encontrar ao se ver perdido e ir se procurando e se encontrando e se perdendo de novo. É tal a necessidade que agora, 11h07min de uma terça-feira fria, estou a digitar como se salvando minha vida, eu preciso tanto ser salva. Mas não sei do quê. De mim. De ti. Dos meus pequenos. Eu preciso ser salva e apenas sou salva ao escrever. Não essas cartas gritadas. Não meus gritos, meu choro, minha dor. Toda a minha dor. Não. Quero escrever capítulos inteiros que formam um romance inteiro que termina uma série inteira. Uma vida inteira.

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