os mesmos demônios

Tivemos por tanto tempo os mesmos medos e os mesmos demônios espreitando os cantos do nosso quarto que, às vezes, com a porta entreaberta, ainda sou capaz de reconhecer alguns espiando, seus dedos finos, esqueléticos e translúcidos, tocando na madeira encardida, fazendo menção de entrar, mas eles não entram. Eu não deixo mais. Ignoro os vultos escondidos na escuridão, viro para o lado e volto a dormir, assim como você ignorou muitas das minhas lágrimas e dos meus “eu te amo” ditos pelas minhas madrugadas insones. Ignorar é tão mais fácil, obrigada por me ensinar, assim, tenho boas noites de sono. Às vezes, com muita sorte, consigo sonhar e nunca é contigo. Meus sonhos, ao contrário dos demônios do lado de fora do quarto, são cheios de luz e calor. Tenho grama macia contra as costas, sol queimando a pele, os olhos estão fechados e a claridade através da pálpebra me inebria como esperança. Eu durmo no sonho e, no sonho, sonho. E lá, no sonho dentro do sonho, você também não aparece. É tudo vida. É tudo cor e sensação. É tudo som e toque. Dedos acariciam a pele quente pelo sol, feito beijos leves, mas são apenas dedos. O vento arrasta meu cabelo pelo rosto e tudo ao redor faz cócegas e as sinto dentro do ventre. Borboletas e todos os animais com pequenas asas fazem morada dentro do meu ser e tudo é vibrante e pulsa. Eu pulso. Eu vivo. Não há medo de perder aqui, pois não há nada a perder. É apenas sol, grama, corpo quente, sensação. Assisto aos fios dourados do meu braço se arrepiar e espero a noite cair e ela cai e caem junto estrelas frias em cima de mim, mas nunca é desconfortável. Tudo aqui é casa e é casa de mãe. Você não existe. Você não assusta. Não grita. E eu nunca grito de volta. Meus lábios são molhados e inclinados num sorriso – aquele sorriso que não quero dar, mas sempre acabo dando. Minha própria voz acaricia meu ouvido, mas nunca é sobre “vai ficar tudo bem”, nunca é sobre “você consegue”. É sempre apenas sorriso contra ouvido, feito segredo de amantes, mas não é erotismo, não há desejo. É apenas quente feito sol batendo na pele numa tarde de domingo. Meus sonhos são sempre uma tarde preguiçosa de domingo. Quando acordo, o sorriso ainda está molhando meus lábios e é o sol que espreita, querendo entrar no quarto. Os demônios já não existem. Você não está aqui e então eu agradeço

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