Aceite apenas meu sorriso que é cria tua

Estava agora lembrando, sem dor, de quando eu disse que te amava. Meu rosto enterrado em teu peito, sentindo o cheiro da tua roupa e teu perfume misturado ao meu. Foste tu quem disse primeiro e eu não disse “eu também”... Eu disse “eu te amo”... Mesmo não te olhando nos olhos, eu disse. Eu disse... Meus olhos estavam fechados porque me foi doloroso soltar algo tão meu, arrancar assim em público um pedaço da minha carne e da minha alma e te entregar. Te fiz engolir esse meu pedaço com a saliva do nosso beijo de despedida.
Sinto saudade desse dia às vezes... Saudade do que fomos e do que seríamos se o “eu te amo” tivesse sido o suficiente. Eu deveria ter te olhado nos olhos, não deveria? Eu deveria ter dito “eu te amo” te olhando fundo na alma... Eu fiz errado? Não. Eu disse. Eu disse que te amava e você sorriu. Como sei que sorriu se meus olhos estavam fechados? Eu senti o teu sorriso no peito que ancorava meu rosto. Eu senti teu sorriso na voz quando riu, sem graça, porque acho que não esperava que eu respondesse. Eu senti teu sorriso em meus lábios e tu sentiste meu sorriso nos teus. Nos amávamos. No meio de toda aquela gente, éramos dois adolescentes, bobos e bobos, nos abraçando, não querendo soltar a pessoa que tanto quer dentro de si... Um dizendo ao outro que o amava.
Eu te quis para sempre naquele momento e se tu tivesses me dito “vamos fugir”, eu teria fugido contigo. Eu teria corrido o mundo todo ao teu lado naquele momento... Se tu tivesses pedido, mas não pediu... Obrigada.
Obrigada por esse momento que durou a eternidade. Obrigada por ter dito primeiro e por ter esperado minha resposta. Obrigada por ter sorrido quando eu finalmente respondi, mesmo que com a voz abafada por conta do tecido da tua roupa. Obrigada por ter repetido que me amava e por ainda repetir como se soubesse quando é tudo que eu preciso ouvir.
Obrigada por ter me dado um pingo da tua vida, uma gota que cai em minha vida e causa certo alvoroço, maremoto... Toda vez que lembro da primeira vez que te disse “eu te amo”... Porque foi a primeira vez que disse “eu te amo” para alguém.
Nunca disse nem ao meu reflexo ou a minha mãe.
Obrigada por ter sido contigo e com mais ninguém... E mesmo que eu passe a te odiar, eu sou assim – odeio com mais facilidade do que amo – e mesmo que eu passe a te odiar, eu nunca vou te esquecer porque eu disse “eu te amo” e eu, eu, eu... Eu... Obrigada por ter me amado naquele momento como eu te amava. Como eu te amei. Como nos amávamos. Como nos amamos...
E passou. Deixou saudade. Vazio que talvez doa quando o sal de lágrimas cair nas extremidades. Vazio que será preenchido com um sorriso saudoso porque eu disse, eu disse... Que te amava e você sorriu.
Como eu sorrio agora. Não mais em teus lábios, mas o mesmo sorriso... E a culpa é toda tua, aceite. Aceite meu sorriso como aceitara meu “eu te amo”. Aceite meu sorriso saudoso nessa manhã fria como aceitara o pedaço da minha carne, minha alma... Aceite meu sorriso como aceitara tua vida pingando na minha vida, causado maremoto. Causando alvoroço. Aceite meu sorriso porque não há mais nada que possa fazer a não ser aceitar... Aceite meu sorriso como quem me aceita de volta... Não, não precisa me aceitar... Aceite apenas meu sorriso que é cria tua, que é presente que te dou de bom grado e de mãos limpas, mas que te prendem para mais um abraço... Como na tarde em que eu disse “eu te amo” e você aceitou. Como na tarde, fim de tarde, em que nos amávamos no meio de toda aquela gente, mas que existia apenas eu e tu... Meus braços rodeando teu corpo e teus braços rodeando o meu. Meu rosto enterrado em teu peito, meus olhos fechados, úmidos de felicidade, meus ouvidos chiando com o teu “eu te amo” e minha boca, com teu gosto na língua, murmurando um doloroso, porém sincero, “eu te amo”.
Aceite meu sorriso porque eu aceitei cada um dos teus sorrisos em meus lábios. Eu bebi de teus sorrisos até me encontrar ébria, mas não fora o suficiente. Eu precisei de mais e não encontrei. A fonte secou e eu não tinha mais o poder de te fazer sorrir... Nem meus “eu te amo” te causavam sorrisos... Então eu te deixei para que sorrisse longe de mim toda vez que se lembrasse de mim... De nós. Do que tivemos, do que teríamos e do que ainda somos... Pois ainda somos alguma coisa, meu coração maltrapilho – e que não tem mais um pedaço, porque pedaço esse ainda é teu – não acredita que agora somos nada. Não, meu amor. Não podemos ser nada porque poderíamos ter sido e tido tudo. Não, meu amor, me sorria e me aceite de volta... Porque eu quero voltar àquela estúpida tarde, àquele fim de tarde e te beijar nos lábios sorridentes, sorriso sem graça, surpreso, porque não esperava que eu dissesse “eu te amo”... Mas eu disse, eu disse...
E não foi o suficiente.
O momento durou para sempre, mas nós não. O amor nunca dura, não é mesmo? Quando vou desistir e aprender?

Mas... E se eu aprender, finalmente aprender... Que graça a vida vai ter?

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