Luto.

Há cinco estágios do luto. Negação. Raiva. Negociação. Depressão. Aceitação. Vivo na beira entre a depressão e a aceitação. Você morreu. Nós morremos. Vivemos por tanto tempo no estágio da negociação: “o que seremos agora? O que faremos agora? Quem ama mais? Quem não pode amar?”, que ainda é meio estranho simplesmente aceitar que não existimos mais. Acabou. E dói feito morte porque você não é mais aquela pessoa por quem me apaixonei. Seus olhos não me dizem nada quando há vários anos me diziam tudo. Suas mãos agora são ásperas contra minha pele. O toque é errado. É frio. É morto. Você morreu. Agora que a raiva já passou, que eu finalmente aceitei que não consigo te odiar, e que nem preciso, eu admito que não conheço mais quem está aí do outro lado. E não de agora. Você vinha morrendo há tanto tempo e me matando junto. Na verdade, foi um suicídio que eu não vi chegando e – bum! – me atingiu em cheio e eu também morri. Não foi você quem matou. Eu me deixei morrer em seus braços porque acreditei que, com um beijo, me reviveria. Eu fiz de você um herói. Um príncipe. Eu fiz de você algo que nunca será... Porque não quer ser. Eu fiz de você o que vi no primeiro dia. No primeiro beijo. No primeiro “eu te amo”. Não desenhei do nada. Não comecei do papel em branco. Você estava lá. Você era tudo aquilo que eu imaginava. E morreu. Você foi tudo que eu quis e não me quis exatamente por isso. Você desistiu de ser o que nos faria feliz e abandonei quem eu era para acompanhar o movimento, para ver se conseguia te seguir, te buscar em algum canto escuro. Eu quis ser a luz no fim do túnel. Eu quis tanto, tanto, tanto ser algo que você precisava que não consegui ver que você  não queria ajuda. Que não merecia ajuda. Eu quis tanto, tanto, tanto um sonho encantado que não me dei conta que era só pesadelo e dor. Eu fiquei tanto, tanto, tanto tempo tentando te salvar, quando só quem precisava ser salva era eu. De ti. De nós. De mim. Eu fiquei esperando você voltar a ser quem era, quem eu conheci, que não quis aceitar que nunca mais voltaria. Que você se perdeu em algum momento, num flash de luz que me cegou e eu bloqueei a mudança. Eu não vi. Eu não quis ver. Eu te deixei me puxar e puxei, puxei, puxei... Tentando me salvar, tentando te salvar. Tentando salvar o que restava de nós, mas já não havia mais nada. Já estávamos mortos há tanto tempo que nenhuma tentativa besta e estúpida de ressuscitação funcionaria. A gente tentou. Eu tentei e sei que do seu jeito torto, você também tentou. Eu estou escrevendo isso, 02h46min, porque quase liguei só para ouvir sua voz. Já faz tantos dias... Só para dizer que não está doendo, que está é queimando aos poucos o que tínhamos, purificando. Que estou te esquecendo e é isso que dói. Isso dói porque você disse que nos acostumaríamos e estava certo. A aceitação está chegando e me apavora. Volto à negação. Volto à raiva. Mas tenho medo de barganhar e ser a única a perder. De novo. De novo. De novo. Eu perdi durante o ano inteiro e acreditava que estava ganhando porque te tinha do meu lado. Mas você não estava comigo. Estava em qualquer outro lugar. Estava fazendo qualquer outra coisa. Com qualquer outra pessoa. Vivendo outra vida. Enquanto eu estava presa na vida que tinha contigo. Na vida que você me deu e esqueceu de me avisar que estava acabando com ela. Na vida que morre agora, aos poucos, queimando-se com o passar dos dias em silêncio, sem nos vermos. Não existe mais toque. Voz de sono. Nossas músicas. Não existe mais planos, bobos ou grandiosos, não existe mais nós. Não existe promessa de nunca mais escrever textos tristes, porque foi isso mesmo que eu acabei de fazer. Assim como a promessa quebrada, nos quebramos e morremos. Agora vamos acordar em outra vida.

Seja bem-vinda, aceitação.

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