É o desespero

Tenho que parar de lutar e deixar vir, tudo está em mim, eu sei. É que nasci para ser guerreira e luto comigo mesma, me exijo demais, me torturo, me açoito as costas com palavras gritadas nesta página branca que estou manchando de negro. Eu mancho tudo. Eu estrago. Por isso, estou presa, bloqueada, confinada aqui dentro da minha própria mente, deixando tudo para depois... Problema é que o “depois” já chegou e passou. Problema é que, por causa do prazo, me apavoro e me castigo ainda mais. Deixei tudo para depois e o depois já me abandonou. Eu me abandonei, me deixei jogada às traças de um sucesso que nem tive. Achei que tudo na hora certa aconteceria. Me enganei. Falei demais. Me gabei. Me coloquei, nas mesmas costas açoitadas, um peso que não consegui carregar. Não nasci para isso, tenho que admitir. Ainda nem nasci e me exigem respostas como se eu fosse um velho sábio. Querem que eu saiba sobre línguas, sobre palavras, sobre como escrever, como limpar uma casa, como estar pronta antes das sete. Querem que eu adivinhe e suporte teus humores. Os meus humores. E eu só quero dois minutos de paz. Mas eu não sou a paz. Eu sou o caos. A confusão, a escuridão e todas as bregas rimas em um corpo só. Em um só coração. Eu sou o ruído dos eletrodomésticos à madrugada, que servem apenas para assustar e estragar uma noite de sono. Tudo que eu queria era uma noite de sono e acordar em outro lugar. Longe das páginas em branco, dos números vermelhos, dos gritos sem motivo, das comparações, das brigas e das traições que apenas eu sei. Longe dos pesadelos. Longe dos prazos. Longe do fogo todo que já não suporto mais.

Longe de mim.

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