Se sim, por favor, que continue.

[...] nossas risadas altas no corredor apertado, da minha timidez ao segui-lo por um caminho em que nunca estive, do meu pé direito entrando primeiro em tua casa, “com licença”. Meus olhos seguem pelos gatos enrolados e dormindo... Passam rapidamente pela porta do quarto aberta, a cama arrumada, a grande janela. A prateleira de livros. O que eu te dei está ali, pálido, sem graça e odiado por mim. O que escrevi também está ali, negro e em chamas. Você leu minhas palavras. Cada uma delas. Você releu as que mais gostou. Você me amou. Faz tanto tempo assim? Você se joga na cama, cobre os olhos com o braço e tudo que vejo em teu rosto é tua boca. Teu sorriso que vai crescendo aos poucos, que nunca me é dado assim por inteiro e tão fácil. Demoro, mas me deito ao teu lado, usando o braço que tiro de teus olhos como travesseiro. Quero que me olhe. Você consegue me ver? Realmente consegue? Agora meus dedos passeiam por tua pele exposta pelo corte da camisa. É tão pouco. Você sabia que eu queria mais? Não lembro quem beijou quem primeiro, só sei que demorou, como sempre demorava com nós dois. Deixávamos essa coisa crescer entre nós, crescer tanto até que explodisse e um se aproximasse e beijasse, lentamente, lentamente. “Eu te amo”, não sei quem sussurra primeiro, mas acontece. “Eu te amo muito”, alguém responde e vem uma risada, boba, feliz, solta e jovem. Procuro por uma letra no teto, não encontro, porém, você sabe que é só desculpa para não olhar em teus olhos e, quando toco teus lábios de novo, eles têm gosto de suco. É disso que sinto falta: da névoa que encobria meus pensamentos enquanto estava contigo, porque eu não lembro exatamente de nada. Era apenas eu e tu. Nós dois. Não exista mais nada. E hoje existe tanta coisa entre nós dois que essa tarde em que marquei minha altura na tua parede parece tão longe, tão distante do mundo em que me encontro. Onde está você? Está bem? Se sim, por favor, que continue. 

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