Perdemos nossa cor e é por isso que estamos separados.

          Os dias continuam cinzas e tristes como uma canção popular esquecida depois de um ano. Os dias continuam sem cor e talvez sem amor porque sempre gostei de rimas e já não sei escrever sem elas. Elas que me enchem os olhos e o coração de lágrimas sem beleza e sem tristeza porque tristes são apenas os dias e não eu. Sou feliz com tudo que tenho e com que quero ter e com aquilo que nunca tive e que, mesmo assim, ousei chamar de meu. Já te chamei de meu, meu amor, e você foi embora, levando contigo todos os momentos ruins e deixando apenas boas lembranças e todas tuas qualidades, como se o que vivemos, tivesse sido apenas alegria, alegria, alegria. Esqueço os dramas, os poemas, problemas, vazias camas e pego para mim apenas teus sorrisos lentos em se abrir para mim. Pego apenas tuas mãos nas minhas sobre uma mesa que não era nossa, mas que, naquele momento, apenas naquele momento, foi nossa e só nossa. 
          Não adianta relembrar, o dia continua cinza e a música é alta contra meus ouvidos sensíveis. Os cabelos ainda são molhados contra minha pele que se arrepia como um beijo roubado, mas não é. Nunca foi. O dia é cinza e eu não sou Sol nenhum para fazê-lo brilhar em azul e amarelo como fogo, como chamas que brilharam em teu peito e que já não brilham. Perdeu-se a cor do mundo. Perdemos nossa cor e é por isso que estamos separados. Viramos cinza ou cinzas, como preferir. Somos essa cor sem cor, sem cheiro e sem toque. Somos poeira de fogo, de estrela, daquilo que um dia ofuscou tanto olhos com uma beleza encantada e que não ofusca porque já não existe. Cinza é a cor da saudade, do domingo, do meu corpo longe do teu. Cinza é a cor que levo manchada no rosto querendo que alguém venha e a limpe, lamba a sujeira que escorre dos meus olhos e me dê vermelhos, laranjas, verdes e azuis sonhos. Cinza são os dias e as letras que aqui escrevo furiosamente sem fúria alguma no peito. Não há mais fúria, nem mágoa, nem dor. Há uma saudade ingênua de saber como está, o que tem feito, se o perfume que ainda leva no pescoço e nos pulsos que beijei é o mesmo. É apenas uma saudade ingênua. Ingênua... Que nem o Sol que agora invade o quarto... Sempre sem querer, sem segundas intenções. É sempre sem querer.

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