Na superfície.


Eu estou na superfície. Meu pé mal toca a água, porém ele me chama: “vem, confia em mim, vem”.
Não posso.
A água é fria. Eu sou fria.
“Vem”.
Não posso. Me dá um outro beijo, me faz fechar os olhos e esquecer.
“Vem”.
Não dá. Não consigo. Estou estragada. Machucada.
“Vem”.
Não quero me afogar de novo, ainda nem tenho ar o suficiente. Eu apenas vivo. Eu apenas vivo.
“Vem. Vem. Vem.”
Sou fria demais. Estou congelada aqui, nada conseguirá me derreter.
“Vem”.
Se eu for, se eu entrar na água, você vai me segurar para que eu não me afogue? Tenho medo, tanto medo.
“Eu vou te segurar”.
E eu vou, pé por pé, centímetro a centímetro meu entra na água. Água que gela meus ossos me lembrando que eu tenho que sair dali, que somente a terra é um lugar seguro.
Tenho que recuar, mas suas mãos são firmes e me prendem ali, na água, perto o suficiente para recuar quando eu quiser, mas... Eu não quero.
Estou perto o suficiente para molhar até a cintura... Quero isso.
Fecho os olhos e vou.
Mesmo machucada e quebrada. Mesmo estragada... Mesmo ainda me recuperando do último afogamento.
Eu vou.
Eu vou.

Vou.

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